ALCEO BOCCHINO | Homenagear Alceo Bocchino não é tarefa das mais fáceis. Não basta oferecer-lhe um troféu, cantar os parabéns (de Villa-Lobos, claro) por seus 90 anos e brindar com um bom vinho (italiano,como sua própria (ascendência). Na verdade qualquer homenagem a Bocchino tem que ser necessariamente múltipla, para refletir a própria multiplicidade dos talentos musicais que fazem dele um dos músicos mais completos que este país já produziu. Ao longo dos seus bem vividos 90 anos, ele se multiplicou, sem se dividir,mantendo o padrão superior de qualidade como referência unificadora de sua trajetória. Pianista de excelente formação técnica, com uma leitura a prima vista invejável, tornou-se, desde cedo, o sonho de consumo de instrumentistas e cantores daqui e de fora, como o nosso Iberê Gomes Grosso e o super tenor Tito Schipa, com quem percorreu o Brasil em memoráveis recitais. Poderia ter feito carreira como solista, mas sua natureza musical mais exigente e menos egoísta levou-o a cultivar a música de câmara, essência da própria música, em parcerias que marcaram época, culminando com o excelente Trio que durante décadas ocupava os microfones da Rádio MEC, com Anselmo Zlatopolsky e Iberê Gomes Grosso. Regente de primeira grandeza, dotado de um ouvido excepcional, dirigiu várias e importantes orquestras daqui e do exterior, promovendo primeiras audições de obras de compositores brasileiros, que sempre ocuparam lugar de destaque em seus programas. Entre essas estréias, vale mencionar, apenas a título ilustrativo, a primeira audição brasileira do Concerto No 5 para piano e orquestra de Villa-Lobos, com Felicja Blumenthal como solista, e a estréia mundial da suíte Francette e Piá, também de Villa-Lobos. Poderia ter feito carreira internacional como regente, mas preferiu fazer da regência menos um instrumento de promoção pessoal do que um apostolado a serviço da música, sobretudo à brasileira, e muitas vezes das próprias orquestras, como num dos momentos críticos da Orquestra Sinfônica Brasileira, quando o seu apoio foi no mínimo providencial. Também à frente da Orquestra Sinfônica Nacional foi responsável por um dos períodos mais produtivos da orquestra. A rica e diversificada experiência profissional de Bocchino se desdobrou ainda em atividades didáticas, no trabalho de orquestrador nos tempos áureos do rádio comercial no Rio e em São Paulo e - last not least – sua produção como compositor. Na verdade, é sua obra criadora que representa o testemunho mais vivo e mais eloqüente de seus múltiplos talentos musicais. Elaboradas com mão de mestre e extrema sensibilidade, suas obras resumem todos os conhecimentos técnicos e musicais acumulados ao longo de sua intensa atividade: o brilhante tratamento instrumental, a orquestração exuberante, o domínio tranqüilo da linguagem e acima de tudo sua total e admirável identificação com o universo sonoro do Brasil. Por suas qualidades, mais do que pela quantidade, as obras de Bocchino trazem as marcas das coisas acabadas, perenes, definitivas. Rio, 22 de junho de 2008 Edino Krieger | | | Alceu Ariosto Bocchino, regente, compositor, pianista, professor, nasceu em Curitiba PR em 30/11/1918. Aos cinco anos já participava de festivais de arte, em Curitiba, executando ao piano peças aprendidas de ouvido. mais tarde estudou com João Poeck (piano), diplomado pelo conservatório de Salzburgo, Áustria. Depois de seu primeiro concerto, passou a apresentar suas próprias composições. Bacharel em direito em 1939, optou pela música. Após haver ensinado piano na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, e fisiologia vocal no Conservatório de Santos SP, mudou-se para o Rio de Janeiro RJ. Além de recitais em várias cidades brasileiras, realizou tournées acompanhando o tenor Tito Schipa (1890-1965) e outros. Ocupou os cargos de diretor musical nas rádios Mayrink Veiga e Mundial, do Rio de Janeiro, de regente e orquestrador nas rádios Nacional, do Rio de Janeiro, e Record, Tupi e Difusora, de São Paulo SP. Foi professor de ritmo, transposição e acompanhamento, na Academia Lorenzo Fernandez, do Rio de Janeiro. Além de regente assistente da Orquestra Sinfônica Brasileira, dirigiu a orquestra da Rádio Nacional, a orquestra de câmara da Rádio M.E.C., e a do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Em 1960 dirigiu o primeiro concerto sinfônico póstumo das obras de Villa-Lobos e, nesse mesmo ano, na série nacional da Orquestra Sinfônica Brasileira, regeu um festival de música brasileira, no qual foi apresentada a primeira audição, no Brasil, do Concerto nº5, para piano e orquestra, de Villa-Lobos. No Festival do Rio de Janeiro, do Teatro Municipal, dedicado às obras desse compositor, regeu o bailado Descobrimento do Brasil, criado sobre as quatro suítes de mesmo nome. Nas décadas de 1960 e 1970 viajou pela América do Sul, E.U.A. e Europa, regendo, entre outras, a Filarmônica de Sófia, a Filarmônica da Bulgária, a Sinfônica de Bilbao, a Filarmônica e a Nacional de Lisboa e a Sinfônica de Forth Worth, E.U.A. Em 1981, dirigiu o Concerto de Abertura do IX Festival e Concurso Internacional de Piano, de Maryland, E.U.A., e representou o Brasil no júri. É membro compositor da Academia Brasileira de Música e um dos fundadores da Orquestra Sinfônica do Paraná, da qual é maestro titular desde sua criação, em 1985. Fontes: Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo, Art Editora, 2000. O texto acima não representa a biografia completa do artista, mas sim, partes importantes de sua vida e carreira. | |